terça-feira, 17 de agosto de 2010

Meio Homem

Eu e minha mãe travamos lutas homéricas desde quando eu era criança. De um lado, ela querendo me empetecar, colocar roupas cheias de babados e mil enfeites. Do outro, eu brigando para que todas as roupas que eu usasse fossem confortáveis.


No meio disso havia a filha de uma amiga da minha mãe que sempre foi tudo aquilo que minha mãe queria que eu fosse: magra, comportada, quieta e feminina. Perdi as contas de quantas comparações tive que engolir por conta disso.

O fato é que já disse anteriormente, não tenho todas aquelas manias que as mulheres têm. E nem toda aquela vaidade feminina. Gosto sim de me arrumar, de sair, de ficar bonita, mas nada muito exagerado. Nunca fui de brigar por roupa em liquidação lotada. E nem tive muitas peças de marcas famosas.

Daí que eu costumo falar que sou “meio homem”. Além, é claro, de fazer muitas coisas que seriam “serviços de homem”, como trocar plugs de tomada e a torneira da pia. Às vezes falo que o meu casamento é invertido. E eu acho que isso é uma tendência.

Todas as mulheres com as quais eu converso, contam história de como seus maridos querem amor, carinho, compreensão, sexo, alegria, companheirismo entre ouras coisas. Aí, a gente tem que dar conta de tudo isso depois de cuidar da casa, do trabalho número um, do trabalho número dois, dos freelas (que não deixam de ser um trabalho número três), da cachorra, da roupa, da comida, já cansei só de escrever.

Não estou reclamando do meu marido. O sucesso do nosso casamento é aceitar as nossas diferenças. Rafa foi a primeira pessoa da minha vida que me aceitou do jeito que eu sou e nunca me pediu pra mudar. O mínimo que eu posso fazer é retribuir.

Em contra partida, ele lava a louça beeeeem melhor do que eu, limpa o quintal, enfim, tem obrigações com a nossa casa, diferente do pai dele e do meu pai, que fazem as coisas só pra ajudar minha sogra ou minha mãe. Nem sempre foi assim.

Quando minha mãe achou que eu já tinha idade pra ajudá-la, tratou de me ensinar a lavar a louça. Me lembro de um outro dia em que ela me chamou na cozinha e disse: “hoje você vai aprender a fazer arroz”. Meu irmão, homem, ela não ensinou. Hoje em dia, meus caros, não dá mais para falar o que é serviço de homem e o que é de mulher.

Hoje cada um faz o que pode e a casa fica do jeito que dá. O trabalho está em primeiro lugar, tem que juntar dinheiro pra pagar as contas, pra ter uma vida confortável, pra comprar uma casa, um carro e muitas outras coisas. Mesmo que não haja mais diferença, quando me pego fazendo “coisa de homem” me sinto poderosa.

É uma sensação de conquista, de independência que, ainda que eu tivesse mil serviçais na minha casa, não deixaria de ter. Faz parte de mim, da minha pseudo auto suficiência, dentro das coisas que eu quero e sei fazer. É claro que isso não me impede de sonhar com o dia em que irão inventar uma máquina de lavar roupa que além de lavar, enxaguar e centrifugar, também coloca a roupa no varal, recolhe, dobra, passa e guarda.

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